Janjão Garcia é colunista de Gastronomia do site do Shopping Leblon. Confira aqui as crônicas e os artigos.
CASTELO CAVALO BRANCO
Em almoço com o Adolar, proprietário da importadora DECANTER, e seu fiel escudeiro Stefano na última segunda-feira, soube que no âmbito das reivindicações da indústria nacional de vinhos, há uma demanda estapafúrdia pela tradução para o português dos rótulos ou etiquetas dos ditos cujos. Isto, já somado ao aumento de impostos, cotas, e todo tipo de proteção que o setor vinícola nacional se acha no direito de pleitear, uma verdadeira proteção governamental.
Amarrem seus cintos! Vamos beber (ou não) vinho ruim, ou então pedir falência pessoal para curtir este imenso prazer, conquistado nos últimos 30 anos.
Ao longo desta semana devo ter participado de uns cinco “abaixo-assinados”, e ainda vários telefonemas, para finalizar esse artigo. Na verdade o tema já passava pela minha cabeça, mas a fúria inicial talvez me conduzisse à indelicadeza e aos palavrões. Segurei bem a onda, e a notícia do amigo Adolar me permitiu tratar o assunto de forma mais patética, podendo expor minha expertise de vida perante essas “proteções”.
Desde a minha infância ouço pela minha família, advogados e relacionados ao setor têxtil, os fatos relativos à perda de competitividade da indústria nacional. Os culpados eram os teares do Oriente que faziam tecidos mais largos, com blend sintético, mais adaptáveis à indústria de confecção que emergia naquela época.
Os industriais coloniais do Rio, grande parte deles em nossa cidade e ainda na Serra fluminense, fecharam suas portas; ganharam a aposta tecnológica, alguns industriais mineiros e vários de São Paulo, que perceberam os ventos que soprariam, se posicionando para ali navegarem à brisa larga com “panos folgados”. Exemplar a Coteminas, do falecido vice, o querido José de Alencar.
Mais adiante vivi na pele o embate com a Sociedade Brasileira de Agricultura, Sr. Pedro Camargo, quanto à importação de produtos lácteos. O Brasil não tinha gado leiteiro. Parte relevante de nossa produção era de baixo rendimento – de quatro a oito litros por vaca – enquanto na Europa, a média era de 25 a 30 litros. Nossos homens do campo possuíam um rebanho não-especializado, que poderia ir para o frigorífico (carne) em imediata alternativa diante de uma valorização da arroba.
Ou seja, era algo precário, e a população nos meses de inverno, na entressafra, pagava caríssimo, enquanto as famílias de menor poder aquisitivo não tinham o produto nem mesmo para o consumo das crianças. Faltava mesmo era leite na praça.
Abriram-se as importações, os subsídios de CEE foram reduzidos, e hoje o Brasil tem média acima de18 litros, além de exportar laticínios.
Nesses tempos também vivemos a “reserva da informática” com o objetivo de desenvolver a indústria nacional de computadores, e nosso skill em softwares. O resultado todos nós conhecemos: contrabando, atraso na automatização e ineficiência bancária, resumindo tudo em baixa produtividade.
Portanto, este pedido de proteção feito pelo Instituto Brasileiro do Vinho, solicitando aumento de impostos de importação, cotas, selos, salvaguardas de toda espécie, além da ridícula tradução do rótulo, nos dando em troca promessas de melhoria de qualidade e ampliação da produção, será como foi com o leite, os queijos, os tecidos, e os computadores, uma opção de baixa qualidade: Vamos beber mal ou caro!
Fui criado competindo em piscinas, no colégio Santo Inácio, em regatas, etc. A opção pela qualidade e eficiência se dá pela competição, pelo foco estratégico na concorrência. Esta é a minha lição de vida, onde os “guarda-chuvas” de casa, do trabalho e da vida são os pilares da preguiça criativa, de impedir e limitar o desejo da superação. São, ainda, o deleite dos reacionários, aqueles que pensam que mudar é correr riscos, que arriscar-se em algo, é sinônimo de perda eminente.
O mais grave, no caso do vinho, é que este pleito da turma do Sul é mentiroso, pois apresenta estatísticas que excluem o consumo do vinho de mesa em faixas populacionais mais baixas, como os produzidos em todo Brasil: São Roque-SP como destaque fora da Serra Gaúcha, mas também no Nordeste e no estado do Rio. A mentira segue em frente, pelas promessas relacionadas da indústria nacional em poder de processar em quantidade, vinhos de qualidade semelhante aos importados.
Qualidade! Essa é a questão. Podemos produzir bons espumantes, não ótimos, e alguns bons vinhos brancos. Tintos em condições muito específicas, em certos lugares, de qualidade apenas média. Como a produção é baixa, seu custo será alto, e seu preço… mais ainda, encontrando rivais à altura em vários países de latitude e condições de clima e solo mais favoráveis.
Não é a nossa praia, definitivamente. Faremos vinhos de curiosidade, de orgulho nacional, mas nosso terroir não serve: chove na colheita, o solo é úmido em excesso, e nossa amplitude térmica (diferencial de temperatura entre a noite e o dia) é baixa. A tecnologia com suas técnicas de correção de solo, e também na Indústria, na Cave, com micro-oxigenações, madeira em “chips”, e alguma ou muita química, corrige até certo ponto algumas deficiências. Todavia, vamos tomar vinhos pasteurizados, com gosto de indústria, planes, uma “macdonaltização” do sabor, uma paulada no prazer gourmand.
Selos, cotas, e a absurda tradução das etiquetas, são ações de dificultar, de gerar mais trabalho aos outros, que sempre se transformam em custos extras. O resultado é óbvio: ficará mais caro importar, mais caro para o consumidor. Alguns reduzirão seu consumo, pois não vão querer “descer a ladeira”, ceder aos prazeres adquiridos, outros farão cara feia e irão encarar. O resumo da ópera é que todos se preparem para gastar mais ou beber “m”.
João Luiz Garcia de Souza
Rio de Janeiro, 21 de março de 2012