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Artigo da Semana Shopping Leblon

Janjão Garcia é colunista de Gastronomia do site do Shopping Leblon. Confira aqui, a cada semana, novas crônicas e artigos.

Não vou jogar golfe, nem vou comer em restaurante de shopping center

Chico Mascarenhas, do Guimas

Nos primórdios do Jobi, final dos anos 70, quando o Paulinho Pereira, da Sapasso (lembram da rede de sapatarias?), mandou fazer uns tampos de madeira para colocar sobre dois barris – pois lá era boteco mesmo – havia só umas três ou quatro mesas. Somente nos anos 90 surgiu o “puxadinho” do Chicô Gouvea.

Na época, um dos nossos motes guerreiros, dos boêmios do Leblon, o leitmotiv de uma geração contra a renovação da urbis, era esse: Contra o esnobismo do golfe, com aquelas roupas americanizadas, e qualquer um que venha a frequentar bares e restaurantes em shoppings!

O grupo era grande: Ângelo de Aquino, Chico Marcarenhas, Paulo Casé, Julinho Rego, Grande, Paulo Garcez, Chicô Gouvea, Rubens Gerchman, Claudio Bernardes, Paulo Pereira, Adriano de Aquino, Afonso Costa, Jayme Soares da Rocha, Passarinho, Lalau, meu pai, Pedro Garcia, e tantos outros.

Paulo Pereira começou a jogar golfe no Itanhangá, enquanto outros do grupo, como o Beto Cardim, já eram do Gávea. E perdíamos parceiros de conversa para os 18 (longos) buracos… Ainda tinha uma galerinha que dizia que o frescobol cedinho na praia, antes do chope, estragava o swing. Viramos inimigos do golfe!

Contudo a revolta maior era contra os restaurantes de shopping centers, especialmente os do BarraShopping. Muitos voltavam dos Estados Unidos dizendo ter ido ao Ball Harbour e comido no tal “xyz” da praça de alimentação. “Ta doidão, comer em corredor, sem barulho nenhum de rua, com cheiro de Sears?”. Sobravam argumentos: falta cachorro passante, mendigo pedindo grana, boazudas indo para a praia, batida leve de carro para nos animar com o stress da madame, sujeito vendendo amendoim, e até  guarda reclamando da fila tripla mas acabando no chope.

A urbis, a cidade com uma dinâmica própria, trazia uma vitalidade que gostávamos tanto. Não tínhamos como entender o cara deixar de bater uma hora de frescobol (o único esporte do mundo em que não há disputa, nem pontos, segundo um ótimo parceiro, Millôr Fernandes), e preferir calçar sapato de couro e se vestir como um americano para andar em um gramado fake! Como deixar de ir ao Jobi para se meter em algo sem ar natural, em uma praça de alimentação, que de “praça” não tem nada, nem banco tem, nem um laguinho sequer…

Todavia a vida segue, assim como a cidade e os hábitos. Algumas coisas melhoram, outras pioram, surgem novos fatos, perigos e chateações antes inimagináveis.  Os anos do PDT, do Brizola, foram permissivos com a desordem urbana exagerada, e especialmente com os pequenos assaltos e a “camelotagem”. Não dava para montar nossas mesas sobre os barris do Jobi sem brigar com o boliviano casado com a moça da Rocinha, que vendia bugigangas e artesanato de Madureira. A vida boêmia dos bares deu uma complicada no final dos anos 80… As moças bonitas que passavam também deixaram de dar o ar de sua graça.

Daquele grupo radicalmente urbano, que amava a esquina e o hidrante, e que ainda mexia com os golfistas, participava o Chico Mascarenhas do GUIMAS. Uma alternativa segura era sempre o Guiminhas da Gávea, bem do jeito que gostávamos.

Um dia, lá mesmo, o Chico anunciou: “Vou abrir uma filial no Fashion Mall. Não há como estacionar os carros aqui, tive um assalto no fim de noite, e farei um espaço lindo, vocês vão ver”. Silêncio geral, pois ali se dava um momento novo, já percebido por todos, pelo crescente desconforto que vivíamos nos nossos hábitos, até então imutáveis.

O artigo de hoje é sobre a ruptura de um comportamento consagrado pela boêmia da Zona Sul, o qual vivi e conheci, mas que hoje urge por uma certa conveniência, além dos confortos todos que até o boêmio de carteirinha gosta.

O GUIMAS do Fashion Mall era lindo, o painel da Avenida Niemeyer, o projeto do Claudio Bernardes, volta e meia rolava um jazz, e todos nós frequentávamos o lugar. A iniciativa do Chico e de seus sócios quebrou um paradigma: ir aos bares e restaurantes em shoppings! Foi a primeira experiência do gênero sem traumas no Rio.

O Guimas durou anos por lá, mas não resistiu ao crescimento da Rocinha, e suas consequências no entorno. Passar pelo túnel Dois Irmãos ou voltar pela Niemeyer virou algo arriscado por uns bons anos.

A população de São Conrado se enjaulou, o Fashion Mall sofreu, e o Guimas quase foi ao chão. Mas a iniciativa e a coragem daquela galera nos fez mudar de ideia, entender que era um conforto, uma conveniência, junto com o cineminha ou as compras. A boêmia “lebloniana” cedeu diante dos fatos.

Hoje muitos daquele grupo já se foram, outros continuam resistentes a tudo, e outros mais resolveram jogar golfe, afinal, o que a turma gosta mesmo é de uma boa conversa!

João Luiz Garcia de Souza

Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 2012